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7 de abril, Dia Mundial da Saúde: o que temos a comemorar ?

Por Eloisa Matsuda

O professor e oncologista da Universidade Federal de São Paulo veio quando criança da China ao Brasil. De família humilde, Davi Liu viu na medicina um sonho e uma vocação. Nesta entrevista ao site do IBMS ele disse acreditar que a saúde depende não só da medicina, mas de políticas públicas efetivas e realistas. “A saúde precisa andar junto com a educação da população e o acesso à informação”, declarou o médico.

IBMS No dia 7 de abril, comemora-se o Dia Mundial da Saúde. Aqui no Brasil, você acha que temos motivos para comemorar? O SUS é um sistema completo de saúde, mas não consegue garantir acesso e quando o paciente consegue acessar, os procedimentos demoram… Muitas vezes, no caso do câncer, o paciente piora ou morre porque o câncer avança enquanto o paciente aguarda diagnóstico ou tratamento. Como você avalia esse quadro?

Dr Liu- As datas comemorativas nos convidam a parar e refletir. Na Saúde do Brasil e no SUS não é diferente. Sabemos que o SUS é importante e fundamental para a saúde do Brasileiro e uma enorme conquista da nossa sociedade, mas ela é imperfeita e precisa ser melhorada. Precisamos discutir com equilíbrio e sem ideologia política, o que funciona e o que não está funcionando. O que precisa ser melhorado e o que deve ser preservado com metas e propostas realistas a curto, médio e longo prazo. Só com planejamento e organização é possível superar os desafios. Não é um trabalho fácil e o tempo não é nosso amigo. Eu, como médico da linha de frente do COVID e Oncologista, vejo a realidade do dia a dia do sofrimento daqueles que contam somente com o SUS. É uma luta que procuramos superar a passos tímidos.

IBMS- Com o “fim” da pandemia, os serviços de saúde observam uma demanda represada de pacientes com doenças não Covid e o agravamento de doenças crônicas como o câncer. Como está essa demanda reprimida? É fato que houve o recrudescimento de doenças cardiovasculares e câncer?

Dr. Liu – Sabemos que a pandemia gerou consequências graves no acesso à saúde. Desde famílias que tiveram suas vidas radicalmente transformadas por perdas pela COVID até exames de checkup ou consultas de rotinas que foram desmarcadas. Sabemos que um levantamento recente mostrou que em torno de 4 mil casos de câncer de mama deixaram de ser diagnosticados, só em 2020, por redução no número de exames de mamografia. São 4 mil pacientes que já poderiam estar em tratamento, mas que por não ter feito o exame, não tiveram o diagnóstico. Em geral, quanto mais avançada é a doença, mais difícil é seu tratamento e menor a janela de cura.

IBMS- No dia 7 de abril, comemoramos o DIA MUNDIAL DA SAÚDE. Você, que é especialista também na medicina tradicional chinesa, pode especificar o conceito de saúde? Ter saúde é não estar doente?

Dr. Liu- A visão da medicina chinesa faz parte do meu processo de compreensão e visão do mundo. No oriente, existe um esforço de visão partindo do macro para o micro, do geral para a especialidade, do todo para o indivíduo. Desde as datas que começam pelo ano, mês e por fim o dia, aos nomes que se dá pelo sobrenome ser o primeiro nome e depois o nome próprio. É uma visão integrativa.

Na culinária por exemplo que contempla o uso de dois palitos para todas as comidas em detrimento aos talheres específicos, dos ingredientes todos juntos e misturados em detrimento de ingredientes isolados; e na medicina a compreensão da saúde como um equilíbrio da mente, corpo, espírito e comunidade, em detrimento a compreensão da saúde como a simples ausência de doença.

IBMS- Qual a diferença entre o conceito de saúde na tradicional medicina chinesa e na medicina ocidental?

Dr. Liu- Embora muito amplo o conceito, eu vou tentar explicar com um exemplo que pessoalmente gosto bastante. Digamos que você tenha ganhado um carro e que não entenda nada de mecânica. Digamos que você não tenha sido ensinado a dirigir e nem para onde deverá ir. Simplesmente ganhou o carro e precisou passar boa parte da vida aprendendo o básico, depois o rumo e a direção.

Se surgir um problema, a quem você recorre? Como identificar o problema? Como saber se está indo na direção correta?

A medicina ocidental da forma como conhecemos, baseada em evidências, ensinada em universidades em modelo cartesiano com estudo da origem de doenças, patologia, fisiologia, biologia molecular, fez com que o conhecimento de mecânica deste ‘carro’ avançasse muito e que desta forma pudéssemos salvar muitas vidas que antes seriam perdidas.

Há um movimento de convergência destes dois mundos diferentes e estamos entrando em um equilíbrio da medicina ocidental com a oriental. Porque mais do que um carro mecânico, somos muito, mas muito mais que isso. Somos a forma que dirigimos, a estrada que escolhemos e a rota para onde vamos, seja onde for. A consciência da integração do motorista, do destino, do automóvel e do caminho fazem parte da compreensão de saúde na Medicina Tradicional Chinesa.

IBMS-  No Hospital São Paulo, você coordena o ambulatório de câncer de mama, o câncer com maior incidência no país depois do câncer de pele. Pode explicar o que é este câncer?  Quais os fatores que o provocam? E como se prevenir?

Dr. Liu – Hoje sabemos muito sobre o câncer de mama e como diagnosticar em momentos iniciais. A mamografia é a melhor ferramenta e permite com grande segurança diagnosticar doenças em estágios extremamente precoces onde a chance de cura supera os 95%. Ter uma vida saudável com atividade física regular, comer uma dieta rica em fibras e frutas, e evitar o estresse ainda são as medidas de estilo de vida que mais fazem diferença. Mas não adianta fazer tudo isso e não fazer os exames de rotina. É importante se cuidar, conhecer o seu corpo e se houver algo de diferente, conversar com seu médico.

IBMS-  Segundo as últimas pesquisas científicas, quais os tratamentos mais inovadores para o câncer de mama e outros?

Dr.Liu- Hoje nós estamos entendendo melhor a natureza e a origem do câncer e sabemos que nenhum câncer é igual ao outro. Cada doença é única, tão única quanto o indivíduo e a porta, e o tratamento também precisa ser individualizado.

Estamos tendo acesso a tratamentos com base em terapia alvo, imunoterapia e isso faz com que tenhamos muito mais sucesso no combate.

IBMS-  Vamos falar de prevenção? Sabe-se que o câncer está ligado à estilo de vida e que a hereditariedade influi pouco. Pode explicar ? Quais hábitos devemos cultivar para evitarmos o câncer e garantir uma vida com saúde? Atividade física, alimentação saudável. Pode detalhar?

Dr. Liu- Embora não exista uma fórmula ou um protocolo capaz de evitar ou impedir o câncer, sabemos que o estilo de vida é uma das principais causas da doença. A começar pelo tabagismo que é um hábito absolutamente relacionado ao desenvolvimento de câncer de pulmão, boca, garganta, língua, estômago, esôfago, bexiga, rim e outros. Escolhas alimentares hipercalóricas, gordurosas, ou a própria obesidade também é fator de risco claro para surgimento de neoplasias de trato gastrointestinal e câncer de endométrio nas mulheres. Isso significa que há uma enorme relação das nossas escolhas no surgimento de câncer. Optar por uma vida saudável salva vidas.

IBMS-  Estudo populacional conduzido no Reino Unido, avaliou a influência direta da pandemia do COVID-19 nos índices de mortalidade por câncer devido a diagnósticos tardios. Constatou-se um aumento substancial de morte evitáveis, o que reforça a importância do rastreio na saúde da população e como pacientes oncológicos foram extremamente prejudicados durante o período de lockdown. Situação similar ocorre no Brasil?

Dr.Liu – Infelizmente entendemos que ocorre, como o que comentei sobre os casos não diagnosticados do câncer de mama. Porém os dados de registros no Brasil são muito escassos e os dados registrados muitas vezes não são confiáveis ou isentos de poluição. Isso faz com que tenhamos dificuldade de saber o tamanho do estrago.

Sem dúvida sofremos muito com tudo isso.

IBMS- Como médico e professor, como você espera que seja o futuro da saúde no Brasil?

Dr. Liu -A saúde depende não só da Medicina, mas de políticas públicas efetivas e realistas, que possam atender as demandas e necessidades mais urgentes da população e que envolva um planejamento que traga sustentabilidade a médio e longo prazo. Não é fácil. A saúde depende de dados corretos, de informação para o gestor tomar boas decisões baseadas em evidências. A saúde precisa andar junto com a educação da população e o acesso à informação. É um trabalho individual que irá repercutir no coletivo. Acredito muito que um pequeno grupo de pessoas motivadas pode motivar, movimentar, e mudar o mundo. Estou convencido que isso que estamos fazendo é parte dessa visão do futuro que queremos construir.

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