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A Invisibilidade das mulheres na Copa do Mundo do Catar

Gol: bola no fundo da rede

Como está a representatividade feminina durante os jogos da Copa do Mundo em um país que não respeita os direitos humanos? 

A Copa do Mundo é um evento que traz muita visibilidade para o país anfitrião. Se antes você nunca tinha ouvido falar muito sobre o Catar, ou só o conhecia como um país extremamente luxuoso, agora sabe que esse ele possui muitas controvérsias quando o assunto é direitos humanos, principalmente das mulheres e da população LGBTQIA +. 

Apesar de ser o país islãmico mais brando em relação às questões de gênero (as mudanças vêm acontecendo desde 2008, instauradas pelo príncipe herdeiro, Tamim bin Hamad Al Than), as cataris ainda sofrem diversas violações de seus direitos.

Muitas delas, ironicamente, nunca tinham frequentado um estádio de futebol, por exemplo. Não porque existe uma lei que as proíba, mas por conta da cultura, esse não era um lugar considerado “para mulheres”. Além disso, as mulheres não podem entrar nos estádios, mesmo com ingressos em mãos.

No entanto, não são somente esses os problemas que rodeiam as mulheres do país sede da Copa do Mundo. O Catar ainda possui uma série de leis que garantem a dominação masculina sob elas, e também fazem com que elas não possam reagir. 

Confira quais são as principais leis sobre os direitos da mulher no Catar. 

Quais são os principais direitos das mulheres no Catar? 

Por mais que essa seja a primeira Copa do Mundo na qual existe um grupo de mulheres árbitras e também mulheres narrando os jogos, existem diversos problemas que se perpetuam além das portas do estádio. 

Basicamente, no Catar, as mulheres têm pouquíssima, se não nenhuma, autoridade sobre seus corpos. Elas são passadas de mão em mão como se fossem uma propriedade; primeiro são de posse do parente do sexo masculino mais próximo, normalmente o pai ou o irmão, e depois passam a ser do marido.

Esse sistema denomina -se tutela masculina, no qual as mulheres não podem fazer nada sem a autorização de seus familiares ou marido. Coisas que consideramos simples como: trabalhar, estudar, viajar, se casar, conversar com estranhos etc, para tudo elas precisam de consentimento.

Elas também precisam de autorização do marido para ter seus direitos reprodutivos garantidos, além de visitas ao ginecologista para realizar procedimentos como Papanicolau, teste fundamental para detectar o câncer do colo de útero. 

Cultura

Ainda que esse sistema seja mais cultural do que realmente garantido por lei, as mulheres ainda são sujeitas aos desejos de seus parceiros e familiares homens. Elas são incentivadas a não conversar com homens que não conhecem sem a presença de um membro masculino da família. 

Além disso, elas são obrigadas a manter relações sexuais com seus maridos, a não ser que existam “razões legítimas” para que elas não aconteçam. Caso uma mulher decida pedir pelo divorcio, o processo será extremamente difícil. Mesmo que ela consiga, pode ser que ela não obtenha a guarda dos filhos. 

Leia mais: A luta pela não – violência contra a mulher

No Catar, as mulheres estão extremamente vulneráveis, já que não existe nenhum tipo de lei que as proteja contra à violência doméstica, ou qualquer outro tipo. Ainda que os homens não possam bater ou xingar suas esposas, elas precisam voltar obrigatoriamente para casa se isso acontecer. 

Relações fora do casamento

Antes dos jogos da Copa do Mundo começarem, ainda no meio do ano, um caso de abuso sexual entre membros da organização do evento surgiu na mídia. 

De acordo com a reportagem do Uol, Paola Schietekat, de 27 anos, estava dormindo em seu alojamento quando foi abusada sexualmente por um dos seus colegas. Quando a mexicana foi denunciar o seu abuso, o inesperado aconteceu: o homem que a abusou foi liberado, e ela foi condenada à prisão e mais 100 chibatadas por ter “relações extraconjugais”. 

Apesar de ter afirmado nunca ter mantido relações com o homem, as autoridades não aceitaram suas palavras. Afinal, eram as palavras de uma mulher contra de um homem. 

Paola recebeu essa pena porque, no Catar e em diversos outros países árabes, sexo antes do casamento é considerado crime, com a punição de até sete anos, mais as chibatadas. Esse é um grande exemplo de violação dos direitos humanos: além da falta de auxílio à vítima, ainda há a punição física.

Legado deixado pela Copa do Mundo 

Apesar de não ser garantia nenhuma, espera-se que muitas mudanças aconteçam enquanto as políticas de gêneros no Catar. Com os olhos mais atentos para o país, cada vez mais as restrições e fundamentalismos são desconstruídos e dão espaço para uma sociedade mais igualitária. 

Atualmente, já existem incentivos ao esporte com times de futebol feminino e de esportes olímpicos. No entanto, é preciso que as entidades e imprensa fiquem de olho e cobrem por políticas de igualdade de gênero

Não podemos simplesmente voltar a tapar novamente nossos olhos para as injustiças que acontecem com as mulheres desse país. 

Apesar de ser uma cultura completamente diferente da nossa, todas elas merecem ter o seu direito de ir e vir garantidos. Não imaginamos como deve ser não poder escolher o seu próprio destino, porque ainda temos um pouco desse privilégio. Tivemos mulheres que lutaram no passado para garantir o nosso futuro. 

Precisamos continuar a vigilância para que todas as promessas de igualdade e respeito apresentadas durante a abertura dos jogos, sejam cumpridas. 

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