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Entrevista com o Dr. Roberto Focaccia: Doenças infecciosas estão crescendo no país!

O mês de julho destaca a cor amarela, das hepatites virais. E para falar delas e de outros importantes temas de infectologia como Covid, Varíola dos Macacos e vacinas, entrevistamos o iminente professor Dr. Roberto Focaccia, livre docente da Faculdade de Medicina da USP e autor do Tratado de Infectologia.

IBMS – O que são as hepatites virais? E como preveni-las?

Dr. Focaccia – O tema “hepatite viral” se refere a um conjunto de doenças distintas nominadas pelas letras do alfabeto, de A a E, as quais têm em comum o fato de ficarem primariamente e necessariamente no fígado e se exteriorizarem de formas semelhantes. É possível clinicamente, identificar se há uma hepatite A, B, C, D ou E pelas manifestações clínicas. É necessário fazer testes para identificá-las.

Há muitos outros vírus que podem causas hepatite ocasionalmente. Tal como os adenovírus, que recentemente causaram um surto de hepatite grave em crianças. A hepatite A é uma doença comum na infância, geralmente benigna e que oferece imunidade permanente.

Raros são os casos graves, chamados fulminantes, que requerem um transplante hepático. A hepatite A se transmite pelas fezes, trata-se de um vírus intestinal. Há vacina disponível contra essa hepatite. As hepatites B e C são mais graves. A primeira transmite por via sexual, contato por sangue ou derivados e da mãe infectada para criança. A hepatite C se transmite basicamente por sangue, deve se considerar a transmissão através de material cortante ou perfurante de uso coletivo (injeção, acupuntura, tatuagem, navalha, gilete, manicures etc.).

A hepatite B tem vacinação muito segura, enquanto não há vacina disponível para a hepatite C. Ambas podem evoluir para cirrose hepática e até câncer primário de fígado. Hoje já temos medicamentos que curam a hepatite C e outros que controlam e atenuam a gravidade da hepatite B. Como essas duas doenças não apresentam sintomas, é recomendável que toda a população se submeta à testagem para detectá-las.

A hepatite D ou Delta não ocorre no sudeste e sul do país, e somente causa lesão quando em associação com a hepatite B. Vacinando-se contra a hepatite B, a pessoa está protegida também contra a hepatite D, por consequência. A hepatite E tem menor importância no Brasil.

IBMS – Na sua avaliação como infectologista, qual será o caminho da pandemia de Covid-19. O último dado indica recuo da pandemia?

Dr. Focaccia – A pandemia de Covid 19 não acabou, pelo contrário, está em plenos nível ascensionais. Hoje o Brasil é o terceiro país do mundo com maior número de casos, apresenta a sexta maior mortalidade no mundo. Sendo o primeiro, se considerado por milhão de habitantes.

O que ocorre é que a variante Ômicron, originada da África do Sul, atualmente predominando no globo, apresenta sub-variantes, como a B1, B2 e B5, que sofreram várias importantes mutações na espícula do vírus, que é por onde esse vírus penetra no organismo. Em consequência, o vírus ganhou uma imensa capacidade de disseminação, porém, causando doenças menos graves. As pessoas vacinadas contra Covid podem ter uma proteção parcial contra o vírus, o que não contraindica aplicar as 4 doses recomendadas da vacina para a proteção da evolução clínica que elas oferecem.

Mesmo pessoas vacinadas devem continuar se precavendo; fazendo uso de máscaras, especialmente em locais fechados; evitar aglomerações, pois as vacinas não protegem contra reinfecções. No Brasil houve uma redução na mortalidade, mas ainda apresenta cerca de 250 mortes por dia.

IBMS – A Varíola dos Macacos acaba de ser considerada uma emergência sanitária mundial. O que significa isso na prática? Pode explicar também o que é essa doença e como se transmite?

Dr. Focaccia – A chamada Varíola dos macacos, erroneamente atribuída aos macacos, pois as fontes são roedores e outros animais, é uma doença que pode ser transmitida ao homem, causada por um vírus da mesma família da varíola humana, a qual foi extinta no planeta em 1978, através de uma extensa vacinação mundial.

Essa varíola dos animais ocorre em áreas das florestas das África Central e Ocidental, através de viajantes e, provavelmente, por mutações de vírus, vêm ocorrendo de forma epidêmica de fora da África, já tendo atingido mais de 70 países.

A varíola dos animais, ao contrário da varíola humana é mais benigna e não há relato de mortalidade fora da África. A infecção se transmite por contato próximo, com secreções respiratórias ou com as lesões de pele, que são muito características em forma de vesículas. Pode ocorrer também por transmissão por objetos recentemente contaminados.

O vírus foi também detectado em outras secreções do corpo, inclusive secreções genitais, o que pode explicar um número grande de casos ocorridos fora da África, em homens homossexuais. A doença vem dos sintomas gerais, inespecíficos, como febre, dores musculares, aumento de gânglios, cansaço, tem caracteristicamente lesões na pele em forma de vesículas, bem características, semelhantes à varíola humana. Às vezes pode confundir com catapora e sífilis. O diagnóstico é feito por testes moleculares, coletando materiais dessas vesículas.

No Brasil já estão habilitados à fazer o teste, a Fiocruz do Rio de Janeiro, o Instituto Adolfo Lutz de São Paulo e o Instituto Evandro Chagas em Belém.

Pessoas com a doença devem ficar em isolamento total por 21 dias, que é o período de incubação da doença. A cura surge entre 15 e 30 dias. Durante o isolamento, os cuidados com o paciente requerem equipamentos pessoais de proteção para evitar o contágio. Casos suspeitos ou confirmados devem ser rapidamente notificados aos serviços locais de vigilância sanitária. Na cidade de São Paulo já foram confirmados cerca de 90 casos e cerca de 800 casos no Brasil.

IBMS – Além das hepatites, houve grande aumento das DST – Doenças Sexualmente Transmissíveis. O senhor pode comentar? A única saída para a diminuição delas é a prevenção?

Dr. Focaccia – As infecções sexualmente transmissíveis estão em plena ascensão. Isso decorre do relaxamento na prevenção dessas doenças, especialmente na proteção através de preservativos e no aumento da promiscuidade sexual.

IBMS – Qual o papel das vacinas ao longo da história? No Brasil, existe um movimento antivacina coordenado pelo próprio presidente da república… O senhor pode explicar exatamente o que são as vacinas e como elas agem no organismo? E quais os efeitos colaterais?

Dr. Focaccia –  As vacinas causam a produção de imunidade, por anticorpos e por imunidade celular frequentemente duradouras. Todas elas podem causas efeitos colaterais amplamente superáveis pelo binômio risco/benefício. Admite-se que uma população está adequadamente vacinada quando atinge 90% da comunidade. Hoje, entretanto, não atingimos no Brasil cerca de 50% da população em relação à várias delas.

IBMS – O Brasil – que já foi exemplo na adesão às vacinas – hoje amarga números insuficientes de vacinados. Por que esse retrocesso? Qual o índice ideal de vacinação para proteção da população das doenças?

Dr. Focaccia –  O Brasil sempre possuiu um programa de vacinação invejável, tendo exportado a logística para o mundo. Elas controlaram inúmeras doenças endêmicas, como a poliomielite, o sarampo, difteria, rubéola, tuberculoses, varíola humana, tétano, e tantas outras. Entretanto, assistimos, no momento atual, um negacionismo em relação às vacinas porque houve um grande relaxamento do Programa Nacional de Imunizações por negacionismo ideológico, permitindo o retorno de várias dessas doenças.

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Redação: Eloisa Matsuda.

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