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São Paulo: 469 anos de desigualdades.

Vista da cidade de São Paulo

Apesar da sua importância no cenário nacional e internacional, a cidade enfrenta diversos desafios.

Em 1554, um grupo de 12 padres Jesuítas, entre eles, Manuel de Nóbrega e José de Anchieta, chegavam a região da tribo indígena guaianás, localizada no planalto de Piratininga. O objetivo era catequizar os índios Assim, para iniciarem a sua missão, construíram um colégio jesuíta. A sua inauguração aconteceu no dia 25 de janeiro e chamava Colégio São Paulo.

A escolha desse nome foi porque no mesmo dia, a Igreja Católica celebra a conversão de Paulo de Tarso, mais conhecido como, o apóstolo São Paulo

Nesse meio tempo, ou mais precisamente, 469 anos, o pequeno povoado cresceu e se tornou a maior metrópole do Brasil, com mais de 12 milhões de habitantes. A cidade de São Paulo é grande centro econômico, financeiro e industrial. Além disso, com sua influência internacional, possui a 21º maior economia do mundo, sendo a 3º maior da América Latina.

Semelhantemente, a cultura possui um enorme destaque. Considerada um polo cultural, com museus, teatros e outras instituições culturais, como o (MASP) Museu de Arte de São Paulo, Museu de Arte Sacra, Museu do Ipiranga, Pinacoteca, Museu de Língua Portuguesa e o Teatro Municipal

A cidade se consolidou não somente como centros cultural, econômico ou científico, mas também como um palco, onde durante esse tempo aconteceram diversos momentos históricos: a Revolução Constitucionalista de 1932, os movimentos das Diretas Já, as manifestações de junho de 2013 e outros momentos que marcaram a história do país

Entretanto, São Paulo enfrenta diversos desafios, entre eles, as desigualdades sociais. Nesse artigo, vamos apresentar algumas dessas desigualdades presentes no dia a dia da população. Dessa forma, o artigo será estruturado do seguinte modo:

  • A pobreza na cidade de São Paulo
  • Infraestrutura (Tratamento de esgoto, coleta seletiva, moradia e mobilidade)
  • Expectativa de Vida
  • Educação
  • Monitoramento Unicef
  • Conclusão

Pobreza na cidade de São Paulo.

A partir da década de 70, muitas pessoas começaram a migrar para a cidade de São Paulo, em busca de melhores condições de emprego e qualidade de vida. Eventualmente, esse crescimento populacional acabou se tornando desordenado.

Desse modo, muitas pessoas foram morar em áreas distantes, ou seja, nas fronteiras do município. Com isso, contribuiu para a formação da região metropolitana. Por consequência, essa distribuição desigual de moradias, ocasionou a destruição de florestas e poluição de rios e mananciais. Além disso, acarretou a formação de favelas, construções irregulares e condomínios de luxo.

Entretanto, assim como a distribuição de moradias foi desigual, a infraestrutura também, concentrando, na maior parte, nas áreas centrais.

Assim, com a valorização das áreas centrais, a construção crescentes de condomínios, aliado à demanda das pessoas por regiões localizadas,com boa infraestrutura e oferta de serviços públicos, o custo para morar, aumentou.

De acordo com o IBGE, o custo médio para morar em São Paulo é de 4.500 reais, podendo variar de região para região. Em contrapartida, a renda média per capita por domicílio em 2021, na cidade de São Paulo, era de 2053 reais, conforme o Boletim de Desigualdades das Metrópoles.

Portanto, com a renda mensal abaixo do real custo de vida, muitas pessoas acabam morando nas periferias, onde o acesso à água tratada, saneamento básico, coleta de lixo, transporte público são deficientes. Com o custo de vida tão alto, acabam até privando as pessoas de se alimentarem com qualidade.

Pessoas em condição de pobreza e extrema pobreza.

Desigualdade na cidade de São Paulo: moradia

De acordo com o Boletim: Desigualdades nas Metrópoles, a definição de pobreza é a privação das pessoas de atender as suas necessidades básicas.

O Banco Mundial, estabeleceu para países com renda média-alta, o Brasil está incluído nessa categoria, a medida de no mínimo de 5,50 dólares por dia, de paridade de poder de compra (PPC). Só para exemplificar, pessoas que vivem com um valor abaixo da média, 5,50 dólares, vivem na linha da pobreza

O Boletim trabalhou com 2 valores: US$ 5,50 (PPC) para pobreza e US$ 1,90 (PPC) para extrema pobreza. Esses valores em reais, em média, correspondem a R$ 465 e R$ 190 reais.

Dessa forma, conforme o boletim, na cidade de São Paulo, 17,8% das pessoas viviam com até US$ 5,50 dólares por dia em 2021, ou seja, mais de 2.189.400 pessoas

Por outro lado, ainda segundo o boletim: desigualdades nas metrópoles, 4,7% dos moradores de São Paulo em 2021, vivem com até US$ 1,90 dólares por dia, corresponde a mais de 578 mil pessoas.

Ao todo, a quantidade de pessoas em condições de pobreza podem chegar a 3 milhões.

Infraestrutura.

Assim, como vimos no tópico anterior, uma grande parte da população da capital de São Paulo convive com muito pouco. Como resultado, muitas pessoas deslocam e residem nas áreas periféricas, favelas, imóveis em situação de risco ou até mesmo nas ruas

Entretanto, esses lugares apresentam pouca infraestrutura para os habitantes, ou seja, imóveis em lugares de risco, tratamento de água e esgoto ineficiente, entre outros serviços públicos, que muitas das vezes, não são oferecidos de forma eficiente para todos.

Nesse sentido, as pesquisas Mapa da Desigualdade entre as Capitais Brasileiras, e o Mapa da Desigualdade apresentam essas desigualdades, a sua distribuição e evolução no decorrer dos anos.

Dessa forma, a cada tópico, vamos mencionar o Mapa da Desigualdade entre as capitais brasileiras e para explicar como está o município de São Paulo em comparação com outras capitais. Em seguida, iremos aprofundar, analisando em quais bairros as desigualdades estão mais presentes, por meio do Mapa da Desigualdade e o Boletim: Desigualdade nas Metrópoles

Tratamento de esgoto e a coleta seletiva.

O Mapa da desigualdade entre as capitais brasileiras de 2020, divulgado pelo Programa Cidades Sustentáveis, possui como objetivo de identificar a oferta de serviços públicos, a partir de dados estatísticos, como os indicadores municipais.

De acordo com o mapa, a proporção da população com acesso à coleta de esgoto corresponde a 74,23%, ou seja, mais de 25% das pessoas não possuem acesso à coleta de esgoto.

No entanto, a proporção de esgoto tratado é um pouco melhor, cerca de 87,1%

Já que nem toda a população possui acesso à coleta e tratamento de esgoto, a coleta de resíduos sólidos ainda é bem desigual Segundo o mapa, a taxa de cobertura de coleta seletiva porta -a-porta no município de São Paulo, equivale a 80%.

Em relação aos bairros, o Mapa da desigualdade de 2022, divulgado anualmente, pela Rede Nossa São Paulo. Seu objetivo é mostrar as desigualdades presentes nos distritos da capital paulista e a evolução das políticas públicas.

O mapa mostra que a proporção de resíduos domésticos coletados seletivamente por bairro é maior nas regiões do centro, zona oeste e zona sul 1, variando de 5,7 a 10,3% dos resíduos coletados. Destaque para o bairro Vila Mariana com 10,3%

As piores proporções foram registradas nas regiões Norte e Leste da cidade, variando entre 0,2 e 2,4% dos resíduos coletados seletivamente. O destaque negativo vão para os distritos de Jaçanã e Tremembé, com apenas 0,2% dos resíduos coletados

Moradia.

Vista de favelas na cidade de São Paulo

Conforme o Mapa da Desigualdade, a proporção estimada de domicílios em favelas, em relação ao total de domicílios por bairro, são maiores nas regiões leste, norte e sul 2, variando entre 3,8% a 32,7%. O distrito de Vila Andrade concentra 32,7% das moradias em favelas.

Em contrapartida, 10 bairros localizados nas regiões oeste e central não possuem nenhuma favela.

Segundo o Mapa da desigualdade entre as capitais brasileiras, o percentual da população negra em aglomerados subnormais em São Paulo, isto é, as favelas, corresponde a 6,92%.

De acordo com o Mapa da Desigualdade, a maioria da população preta e parda residem nas regiões norte, leste e sul. Por exemplo, no distrito do Jardim Ângela, 60,1% da população é negra e parda.

Todavia, nas regiões centrais, como o centro e zona oeste e sul 1, a população negra não chega a 28%. O bairro da Moema, na zona sul 1, concentra apenas 5,8% da população negra e parda

A comunidade negra não é só maioria nas favelas, mas também em moradias de risco. Dos bairros que possui um número maior de moradias nessa situação, estão localizados nas regiões norte, leste e sul. O distrito de M Boi Mirim abrange 3,8% das moradias em setores de risco geológico e hidrológico alto.

Mobilidade urbana.

A cidade de São Paulo conta com mais de 12 milhões de habitantes, sendo que a grande maioria reside em regiões distantes das áreas centrais. Além disso, são mais de 8,8 milhões de veículos em circulação, conforme o IBGE. Em horários de pico, como início da manhã e o final da tarde, o engarrafamento é inevitável. Com efeito, o tempo de deslocamento vem aumentando no decurso dos anos.

Segundo o mapa de desigualdade entre as capitais brasileiras, o tempo médio casa-trabalho, em minutos, na cidade de São Paulo, são de 51 minutos, o maior tempo em relação a todas as capitais.

Desse modo, o relatório do Mapa da Desigualdade, mostra que nos bairros como Marsilac na região sul, o tempo médio de deslocamento em transporte público no período da manhã corresponde a 73 minutos.

Nas extremidades das regiões sul, norte e leste, o tempo de deslocamento varia entre 42 a 73 minutos. O distrito de Pinheiros, localizado na zona oeste, apresenta o menor tempo, 25 minutos.

Outro dado importante, apresentado pelo mapa, é o acesso ao transporte de massa. Em 29 bairros localizados nas regiões periféricas da cidade, a população não reside próximo aos sistemas de transporte públicos (trem, metrô e monotrilhos). Nas regiões centrais, mais de 70% da população possui fácil acesso aos sistemas de transporte público de massa.

Desse modo, com a demora no deslocamento, e o difícil acesso aos sistemas de transporte, dificulta o deslocamento ao acesso aos principais pontos da cidade, como os centros culturais, porque infelizmente a maioria deles estão localizadas nas regiões centrais.

Expectativa de vida em São Paulo.

As desigualdades sociais, como apresentamos no decorrer do artigo, impacta diretamente na qualidade e expectativa de vida das pessoas.

Conforme o Mapa da Desigualdade entre as capitais brasileiras, a média de expectativa de vida nas capitais, em 2017, é de 76 anos.

Em 2021, segundo os dados apresentados pelo Mapa de Desigualdade de São Paulo, a expectativa de vida pode ser bem diferente entre as regiões. Por exemplo, a idade média ao morrer no Jardim Paulista, na zona oeste, é de 80 anos. Em contraste, no distrito de Iguatemi, zona leste, a expectativa de vida é de 59,3 anos.

A expectativa de vida está relacionada com a qualidade de vida, ou seja, os cuidados com a saúde, educação, emprego, como também o acesso aos serviços públicos de qualidade contribuem para o aumento da idade média ao morrer.

Educação.

Desigualdade educacional na cidade de São Paulo

Uma das formas de podermos mudar essa realidade é através da educação. A partir dela, pode-se transformar não só as vidas das pessoas, mas também educar e empoderar as pessoas para que elas possam transformar o local onde elas vivem.

Entretanto, presenciamos desigualdades até no ensino. De acordo com o Mapa de desigualdade, a diferença entre o número médio de anos de estudo entre negro e não negros na cidade de São Paulo, são de 2,2 anos.

A população negra analfabeta, também é maior que a população analfabeta não negra. Segundo a pesquisa, a proporção de diferença na capital, corresponde a 2,1%.

Ideb e o abandono escolar.

Dessa maneira, também há diferenças na educação entre escolas localizadas nas periferias e no centro. Conforme o Mapa da Desigualdade de São Paulo, a média das escolas do ensino fundamental (anos iniciais), no Ideb, foi de 5,9. As notas variam de 0 a 10.

Contudo, as escolas de 42 distritos tiveram notas abaixo da média. As escolas localizadas no bairro Butantã, superou a média, e alcançou a nota de 6,7

O IDEB, é um índice que mede o desempenho da educação básica. Só para exemplificar, a educação básica consiste no ensino infantil, fundamental, e o ensino médio.

Já nos anos finais, a média do município foi a nota 5,2. Entretanto, em escolas, localizadas em mais de 50 distritos, ficaram abaixo da média. Novamente, o distrito do Butantã, obteve a maior nota do Ideb, 6,1.

Outra questão, bem preocupante, é o abandono escolar no ensino básico. Muitas crianças e jovens abandonam a escola por diversos fatores, tais como: a desinteresse, trabalho, entre outros motivos.

De acordo com o Inep, em 2016, 41 escolas apresentava as maiores taxas de abandono escolar no ensino fundamental no ensino público. Todavia, em 2019, houve uma diminuição da taxa de abandono, em 33 escolas. Por exemplo, na Brasilândia, a taxa caiu de 2,37% para 1,84%.

Apesar de a média da taxa de abandono no ensino fundamental da rede pública ser baixa, por volta de 0,8%, no ano de 2021, em mais de 40 distritos, a taxa de abandono pode variar entre 1,1% ou mais, podendo chegar a 5%, como no bairro da Mooca.

Monitoramento da Unicef.

Os dados apresentados anteriormente, referem- se as desigualdades sociais presentes na cidade de São Paulo entre os anos de 2020 e 2022. No entanto, a Unicef, vem acompanhando a evolução das desigualdades na infância e adolescência, conforme o monitoramento de indicadores na plataforma de centro urbanos 2017-2020

O monitoramento visa acompanhar as garantias dos direitos das crianças e adolescentes. Sendo assim, o primeiro dado avaliado foi a mortalidade neonatal. A taxa de mortalidade neonatal era de 7,53 mortes por 1000 nascidos vivos em 2016 para 7,72 mortes em 2019.

De acordo com o Mapa da Desigualdade de São Paulo, a mortalidade neonatal aumentou para 9,9 mortes para cada 1000 nascidos vivos em 2021. Nas periferias e extremidades das regiões leste, norte e sul, essa taxa pode variar 9,1 e 26,7 mortes.

Gravidez na adolescência.

Gravidez na cidade de São Paulo

Outro dado importante, é a proporção de bebês nascidos de mães adolescentes. Entre 2016 e 2019, houve uma redução de 32% em adolescentes com idades entre 10 e 14 anos, e de 19% em adolescentes entre 15 e 19 anos, em 2019.

O percentual de nascidos vivos de mães adolescentes entre 10 e 19 anos em 2019 foi de 9,77%

Conforme o mapa, no ano de 2021, a média da proporção de nascidos vivos de adolescentes com menos de 20 anos, caiu para 8,5%, embora em alguns distritos, a proporção pode variar entre 9,6%, podendo chegar a 13,3%, como no distrito da Cidade Tiradentes.

Distorção idade-série.

Um ponto de atenção é a taxa de distorção idade-série. Essa taxa é a situação do aluno estar 2 anos ou mais atrasado em relação à série na qual ele deveria estar.

Em 2016, a taxa de distorção idade-série no ensino fundamental da rede pública aumentou de 7,37% para 9,10% em 2019, segundo a UNICEF.

Em contraste com esses dados, no ano de 2021, a média da taxa de distorção-série diminuiu para 7,8%, conforme o mapa da desigualdade. Entretanto, alguns distritos, apresentaram taxas entre 9,3% até 14,7% como o distrito de Perdizes.

Por isso, a importância de acompanhar a evolução dos dados, pois assim, pode-se pensar em políticas públicas eficientes para o combate dessas desigualdades.

Conclusão.

A cidade de São Paulo, completou mais um ano de vida, 469 anos. Durante esse tempo, houve avanços, conquistas, por exemplo, crescimento econômico. Entretanto, o desenvolvimento social ficou um pouco para trás.

São muitas desigualdades, como vimos ao longo do artigo. Entretanto, algumas delas, apresentaram uma evolução para melhor. Afinal, nem tudo está perdido. Sempre é possível melhorar.

Essas melhorias, advém de boas políticas públicas, que inclua todos os cidadãos. As informações estão aí, mas ouvir e estar perto de quem mais precisa, é primordial para revertemos esse cenário.

As políticas públicas não devem ser pensadas somente para 4 anos, mas para o longo prazo. São Paulo se tornou destaque e uma potência nacional e internacional. Agora, deve ser uma referência para os moradores, ou seja, uma cidade referência na saúde, educação, repartição de renda, infraestrutura e moradia.

Driblando a Fome.

O Projeto Driblando a Fome do Instituto Brasil + Social, nasceu para formar uma rede de solidariedade para arrecadar comida para os mais carentes e para fomentar o debate sobre a problemática da fome no país.

Acesse institutobrasilsocial.org.br e saiba como ajudar.

Escrito por Adilson Junior.

Revisado por .

Publicado por Gabriela Burcius Arguelles Horrio.

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